(12 de Abril de 2008)
Clique aqui para ver a apresentação do modelo pela Dra. Elisa Leandro
Clique aqui para ver a apresentação do modelo pela Educadora Ana Abreu
A 12 de Abril, perante um alargado número de profissionais de educação de infância foi abordada uma prática educativa introduzida em Portugal em 1984, que dá primazia nos primeiros anos de vida das crianças, ao aspecto sensorial em detrimento do intelectual.
A professora Elisa Leandro ao contextualizar o modelo, dá a conhecer a vida e obra de Rudolf Steiner (1861-1925), o criador da Pedagogia Waldorf. Na sua adolescência os assuntos espirituais despertaram-lhe a curiosidade, com apenas 14 anos adquiriu um exemplar de “A Crítica da Razão Pura” de Kant. Aos 23 anos concluiu estudos em Filosofia e torna-se responsável pela edição dos estudos científicos de Goethe. Para Steiner o mundo natural era uma comunidade viva, orgânica impregnada de espírito. Aos 30 anos conclui a tese de Doutoramento “Verdade e Ciência”. Em 1913 forma a Sociedade Antroposófica, em que se defendia uma linha do conhecimento com o objectivo de que o homem torna-se mais humano ao aumentar a sua consciência e deliberar sobre pensamentos e acções.
Esta filosofia esteve na base do desenvolvimento da Pedagogia Waldorf, em que se procura a harmonia entre o corpo e a alma, entre o sentir, o pensar e o querer.
Em 1919, Steiner funda a 1ª escola para os filhos dos operários da fábrica de cigarros Waldorf-Astória (daí a origem do nome do modelo), em que introduz os seus ideais pedagógicos. Os domínios físico, anímico e espiritual são trabalhados em simultâneo e de forma intencional:”As actividades físicas desenvolvem o querer (agir); as actividades artísticas promovem o sentir; o pensar é cultivado por actividades diferenciadas de acordo com o desenvolvimento da criança, que começam pelo fomento da imaginação através de contos, lendas e mitos, no jardim de infância, até ao pensar abstracto, rigorosamente científico, nos níveis de escolaridade subsequentes.” (Elisa Leandro) Para além deste princípio, preconiza-se uma organização social em que a liberdade, a igualdade e a fraternidade estejam presentes. Valoriza-se o pensamento claro e preciso sem preconceitos ou dogmas, a liberdade de direitos e obrigações. Pretende-se dar liberdade, criar entusiasmo, encanto e reverência pela aprendizagem. Respeita-se a criança como ser pensante, artístico e criativo. Dá-se tempo e espaço para aprender sem competições, num clima de interacções, numa atmosfera suave, rica de imaginação, de fantasia e de maravilhamento. A organização dos grupos tem como base que o jardim de infância é o prolongamento do lar e não uma “ante-sala” do ensino escolar; como tal os grupos são constituídos por um número limitado de crianças, com idades que variam entre os 3 e os 6 anos. O espaço é organizado de modo a permitir brincadeiras criativas e construtivas, impelindo a criança para actuar. Os materiais despertam para a fantasia; valorizam-se bonecas de pano, carros de madeira, objectos rústicos naturais como “…pinhas, sementes de vários tamanhos, pedaços de madeira de vários tamanhos e formas, conchas, pedras, raízes…” Os instrumentos musicais, como o metalofone, o xilofone, os triângulos, os sinos também fazem parte do material que existe ao dispor da criança.
Na rotina diária existe a alternância entre esforço e descanso. A repetição de tarefas estabelecem hábitos e as actividades específicas de cada dia permitem a percepção qualitativa do tempo. O dia é dividido entre regar plantas, arrumar a sala, guardar brinquedos, o canto, os contos e histórias, as rodas de dança, a euritmia (mistura de dança interpretativa e ginástica) o saltar à corda, a jardinagem, as actividades artesanais (fiar, tecer, coser, modelar cera de abelhas, pintar, desenhar), o amassar e cozer pão, o preparar o lanche e o brincar. Brincar faz parte da natureza da criança e na pedagogia Waldorf ocupa um lugar de extrema importância. As crianças experienciam brincadeiras ao ar livre com terra, areia, água, sobem às árvores, etc.
Inerente a esta pedagogia é a comemoração das festas do ano do calendário cristão, a comemoração do nascimento das crianças, a passagem pelas estações do ano e suas festas. Cultiva-se assim o respeito pela natureza, a reunião familiar, vivenciando-se o ciclo anual através de uma forma directa como fazendo parte integrante da Natureza.
Em termos de metodologia procura-se “…atingir objectivos essenciais para o desenvolvimento físico, emocional e espiritual da criança, adequando o brincar às etapas do seu desenvolvimento motor, da linguagem e do seu pensar” (Elisa Leandro). As actividades planeadas são transdisciplinares e com ritmo anual, mensal, semanal e diário.
O planeamento e avaliação assentam na observação do “ser criança” e das condições necessárias para o desenvolvimento infantil, tendo em consideração as fases de compreensão, assimilação e produção da aprendizagem pelas crianças. Na avaliação, a educadora descreve e caracteriza no livro de cada criança algo aprendido, ou uma situação que observou e em simultâneo dá a conhecer aspectos positivos da criança e estratégias para superar as suas dificuldades.
A articulação com as famílias é sistemática e activa. Desde o início que os pais são informados do método que esta pedagogia preconiza, para uma opção consciente e ponderada. A sua participação na vida diária das crianças, nas festas cíclicas, nos passeios, em encontros com o educador envolve as famílias e promove uma “…convivência social harmoniosa.” (Elisa Leandro)
A educadora Ana Abreu, que introduziu esta pedagogia em Portugal em 1984, quando fundou o Jardim de Infância S. Jorge em Alfragide, na sua apresentação da pedagogia Waldorf, transmitiu o valor intrínseco à referida pedagogia: trabalhar a favor e não contra a tendência natural das crianças para serem activas, valorizar as experiências sensoriais nos primeiros anos de vida e viver ao ritmo das estações do ano. Valoriza-se a experiência viva do conhecimento, que em criança aprende-se a ser adulto. O educador é a âncora de toda a actividade, é o elemento que dá consistência, continuidade e segurança. Transcrevendo Ana Abreu: “Num Jardim de Infância Waldorf, é dado tempo às crianças: tempo para usarem os seus corpos, para se moverem, brincar livremente, sentirem-se seguras nos ritmos diários, semanais e sazonais, para envolver os seus sentidos num ambiente belo e tranquilo, para imitar os adultos fazendo tarefas reais e com sentido; mas mais do que tudo isto é o maravilhamento e a reverência – pela natureza, vida e os outros – que é vivido diariamente, criando um alicerce fundamental de entrega a si própria e ao mundo.”
Já em tempo de síntese colocaram-se questões:
- Como se gere a frustração, o fracasso?
- Como se actua em relação à desobediência?
- Como se processa a transição para a escolaridade obrigatória?
Ana Abreu em resposta às questões, e em jeito de reflexão, acrescentou que a frustração não tem que ser negativa, mas sim um trampolim para outro patamar do desenvolvimento. E nada melhor que a brincadeira livre para superar e resolver frustrações. A presença, a atenção do educador e espaço são essenciais para a ultrapassar. Não existem receitas até porque a frustração está sempre presente na vida humana, faz parte do crescimento.
A desobediência é contornada, não confrontando a criança, mas sim encontrando uma maneira de desviar a criança para outra situação. É utilizada a disciplina criativa e não a autoridade, o que exige do educador um grande desafio.
Na transição para a escolaridade obrigatória, é feito um trabalho muito específico com as famílias. Pela multiplicidade de estímulos que a pedagogia Waldorf permite, as crianças que frequentam escolas Waldorf, são referenciadas pelos professores como sendo sequiosas por aprender, manifestarem interesse pelo que as rodeia, e por serem harmonizadoras nos grupos.
Em modo de conclusão, a pedagogia Waldorf cresceu continuamente, actualmente existem mais de 700 escolas em todo o Mundo que utilizam este modelo pedagógico. Em Portugal existem apenas três jardins de infância e uma escola de educação especial que recorrem a este modelo. Como refere Ana Abreu: “É importante dar tempo e espaço suficientes para uma aprendizagem sem competição e sem pressas. A pedagogia Waldorf é um movimento mundial com uma forte abordagem multicultural, que torna as crianças mais autónomas e responsáveis, com consciência étnica e respeito pela diversidade, procurando formas de se integrar e participar numa sociedade saudável.”
Manuela Moreira
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