quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

O que gera a saúde?

Imaginar para que uma dor aparece, em vez de raciocinar sobre o que a causa. Essa é a reflexão central da medicina antroposófica. Baseada em métodos que buscam a maior coerência entre o nosso pensar, sentir e agir, ela tem atraído cada vez mais brasileiros.

Por Kátia Stringueto
Revista Bons Fluidos - 07/2007

Você já deve ter ouvido falar em medicina antroposófica, mas, como muitos, pode ser que não tenha claro o que isso significa. Não é de espantar: essa medicina tem apenas 87 anos e, em idade, ainda é uma criança se comparada às demais. A homeopatia, por exemplo, tem mais de dois séculos e o pai da medicina, Hipócrates, viveu 300 anos antes de Cristo.

Essa nova terapia, contudo, parece se afinar com a expectativa dos brasileiros. O país é o primeiro em número de médicos antroposóficos em formação: são 88, fora os 300 já certificados pela Associação Brasileira de Médicos Antroposóficos (ABMA).

Abordagem ampliada
Uma peculiaridade nessa forma de tratamento é a escuta. Nesse sistema de saúde baseado na antroposofia, o diagnóstico inclui o estudo biográfico - investigação sobre a fase da vida em que o paciente está.

O nome vem de antropos, "homem", e sofia, "estudo", e denomina a ciência criada pelo médico austríaco Rudolf Steiner (1861-1925). Envolve vários aspectos do saber - da medicina à agri­cultura, da educação à espiri­tualidade, considerada essencial para a vida saudável.

"Quando um médico alopata pergunta sua idade, é para fazer um paralelo com as doenças mais comuns dessa faixa etária. Para o médico antroposófico, é isso e mais além. Ele leva em conta o momento existencial, as crises dessa fase, porque elas influenciam diretamente nosso jeito de pensar, sentir e agir", explica o ginecologista Ronaldo Perlatto, presidente da ABMA. A coerência entre esses três pontos é, para a medicina antroposófica, uma das fontes da saúde. E o desequilíbrio pode ser a razão da doença. Nessa visão, muitas pessoas adoecem porque pensam uma coisa, sentem outra e se expressam ainda de um jeito diferente. A formação de um médico antroposófico - o curso leva três anos, além dos seis da medicina convencional - o prepara para ajudar o paciente a perceber isso, ao mesmo tempo em que atua tecnicamente. "Queremos ajudar a pessoa a descobrir para que ela adoeceu e não só por que ela adoeceu", conta Perlatto.

Qualquer especialidade médica pode integrar a abordagem antroposófica. No campo da ginecologia, por exemplo, um mioma, caracterizado pela reprodução anormal de células até compor um nódulo (benigno) no útero, pode sugerir o seguinte raciocínio. "Nossa vida nos exige muito em termos de crescimento e conquista. Você tem que ter o carro do ano, ler o último livro, ser o melhor. É como uma hipertrofia: cresce. Quando a mulher não realiza o que ela coloca como ideal, inicia-se uma hipertrofia interna e, caso o órgão de choque dela seja o útero, um mioma pode aparecer. Uma conduta convencional seria extrair o mioma por meio de cirurgia, mas, se a pessoa não entende a dinâmica do comportamento, as chances de o sintoma voltar são maiores", explica.

Doenças crônicas têm boas possibilidades de melhora e, até de cura, dentro dessa terapia.

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